Chamada para publicação: Crise capitalista, política social e as lutas dos povos originários e afro-brasileiros

2026-01-12

“Temos de parar de vender o amanhã” (Ailton Krenak). Com essa frase, abrimos a chamada para esta edição da Revista Pensamento e Sociedade, que propõe debates sobre a “Crise capitalista, política social e as lutas dos povos originários e afro-brasileiros”, apresentando-se como um espaço propício para divulgação científica de pesquisadores(as) da área das Ciências Sociais (no geral) e do Serviço Social (no particular). Assim, o dossiê busca reunir estudos e pesquisas que versam, na perspectiva crítica, sobre as lutas dos povos originários e afro-brasileiros, bem como as respostas das políticas sociais, frente ao avanço desenfreado do capitalismo nos territórios e as repercussões engendradas pelo processo de acumulação do capital.

A literatura indígena lembra que as lutas sociais e coletivas são basilares para o enfrentamento e o combate às armadilhas do sistema capitalista no que se refere à sua atuação sobre a natureza e a vida de todos os seres. Por isso, Ailton Krenak defende a tese de que “o amanhã não está à venda”, em resposta à acumulação do capital sob as amarguras do trabalho explorado e desigual no âmbito da sociedade de classes. Noutro argumento, agora do pensador quilombola Nego Bispo, ao versar que “o presente atua como interlocutor do passado  e, consecutivamente, como locutor do futuro”, nos propõe a pensar nas condições de vida impostas aos povos originários e afro – brasileiros na sociedade brasileira ao longo do processo histórico, em todos os territórios, e as implicações atuais da retórica capitalista nos desdobramentos de produção da vida desses atores sociais que tiveram seus direitos cerceados durante parte da história.

Desse modo, não é novidade afirmar que, mesmo com a ampliação de direitos, continuamos vivendo tempos sombrios com possibilidades de arrefecimento humano se não refletirmos e atuarmos frente à questão social frequente. A crise ambiental e climática que afeta, sobretudo, povos étnicos e raciais, populações de baixa renda, moradores rurais e do campo e das periferias urbanas, coloca em questão que, os tempos são nebulosos para quem tem somente tem a força de trabalho como saída. Soma-se a isso as violências e o racismo contra corpos indígenas e negros, tendo em vista a defesa dos territórios e o direito de viver em um país que, historicamente, o sistema colonial silenciou a invisibilizou a diversidade étnico-racial.

Entende-se que o avanço do capitalismo, sob os auspícios da burguesia internacional e nacional e com o apoio do Estado na ótica neoliberal, tem adentrado aos territórios de povos originários e afro-brasileiros. Essa marcha constante desconsidera os modos de ser e viver, os direitos ancestrais, étnico-raciais e jurídicos, as culturas, saberes e línguas, colocando em relevo a urgência das lutas coletivas, bem como de políticas sociais compromissadas em responder às expressões da questão social que se intensificam nos tempos atuais. Embora as políticas sociais se assentem no âmago da relação capital/trabalho, pela sua natureza, estas devem construir respostas qualificadas às expressões da questão social que se intensificam na realidade concreta, e que são marcadas pelas incidências da dialética exploração-opressão capitalistas.

Diante desse prelúdio, o presente dossiê assume o compromisso de dar visibilidade às produções acadêmicas que reiteram a importância das lutas dos povos originários e afro-brasileiros, considerando a formação social do Brasil que por muito tempo mascarou a presença negra e indígena nesse território. E nas palavras de Nêgo Bispo, “Mesmo que queimem a escrita/ Não queimarão a oralidade/ Mesmo que queimem os símbolos/ Não queimarão os significados/ Mesmo queimando o nosso povo/ Não queimarão a ancestralidade”.

 

Gracy Kelly Monteiro Dutra

Doutora em Ciências Humanas/ UFSC

Professora da Universidade do Estado do Amazonas

 

Patrício Azevedo Ribeiro

Doutor em Serviço Social/ UFPA

Professor da Universidade Federal do Amazonas